Segunda-feira, 15 de Março de 2010

Madrinhas de Guerra

 

 

 

-Contráriamente ao que julgávamos, eu pelo menos tinha essa idéia, as madrinhas de guerra não "nasceram" sómente na década de 60 com o começo da luta de libertação das ex-colónias, mas sim muito antes disso, mais concretamente na 1ª Grande Guerra de 1914-1918.

-De facto, a mulher portuguesa sempre desempenhou um papel de importância fundamental pela sua participação nos conflitos bélicos em que Portugal se envolveu e merecem por isso o nosso reconhecimento e respeito.

-Não se envolvendo directamente nas frentes de combate, porque isso lhes era vedado, ao contrário do que acontece nos dias de hoje, sempre tiveram funções importantes  na rectaguarda nas quais praticaram actos de extraordinário valor.

-Permito-me aqui transcrever um discurso de homenagem ás mulheres que se bateram pelo país durante e terminada a guerra, proferido em 13/01/1923, perante o Senado da República:

 

"Senhores Senadores_Durante o longo período da  Grande Guerra, por notícias repetidas chegadas até nós, soubémos que a Mulher de todas as nações em luta, continuando a elevar-se pelo sentimento-quantas vezes superior ao raciocínio-praticou actos de valor, abnegação, piedade e ternura, que mais direito lhe dão à nossa consagração e ao nosso amor.   Em Portugal, desde a Santa Cruzada das  Mulheres Portuguesas, às Madrinhas de Guerra, às senhoras da festa da flor e principalmente às enfermeiras que nos hospitais de sangue suavizaram as febres, as dores e as saudades aos que se bateram a centenas de léguas da Pátria, em Portugal, dizia, também a mulher não desmereceu das suas nobilíssimas tradições de sempre. Agora nos paramos da guerra, as  suas maõs patricias e as suas doces palavras de consolação foram os únicos alivios morais para o sofrimento dos filhos da nossa terra que pelo  Direito, Civilização e Humanidade se bateram com o valor indomável que em tempos idos nos deu jus a  sermos cognominados na História do Mundo de povo de Heróis".

 

-Contudo, as modernas madrinhas de guerra surgiram de facto na década de 60 com o inicio da luta armada nas ex-colónias, por iniciativa do Movimento Nacional Feminino (MNF), afecto, como se sabe, ao regime então vigente, e fazia parte de uma estratégia de apoio moral e social, quer aos militares quer ás suas familias.

-O Movimento Nacional Feminino era presidido por Cecília Supico Pinto, esposa de um ministro do governo do  Dr. Salazar, e era a sua principal figura emblemática.  Ao MNF se deve também o lançamento dos aerogramas, vulgo "bate-estradas", que constituíram o meio mais difundido de correpondência entre os militares e as suas familias, mas também, como não podia deixar de ser, com as madrinhas de guerra.

-O transporte dos aerogramas era gratuito, como era também gratuita a sua distribuição e quando expedidos para fora do território nacional, também não pagávamos nada, por especial deferência, penso, da transportadora aérea nacional, a TAP.

 

-" Que cada uma de nós se lembre que lá longe, nas Provincias Ultramarinas, há rapazes que deixaram tudo: mulheres, filhos, mães, noivas e o seu trabalho, o seu interesse, tudo enfim, para cumprirem o dever de soldados.  É preciso que as mulheres portuguesas se compenetrem da sua missão, e assim como eles estão cumprindo o seu dever, lutando pela nossa querida Pátria, também vós tendes de  cumprir  o vosso, lutando pelo bem-estar dos nossos soldados, luta essa bem pequenina, pois só uma palavra, um pouco de conforto moral basta para levar alguma felicidade aos que estão contribuindo para a defesa da integridade do nosso Portugal.

-Ofereçam-se para Madrinhas de Guerra. Mandem o vosso nome e a vossa morada para a sede do Movimento Nacional Feminino".

 

-Era desta forma que em 1963, em artigo publicado na Revista Presença, o MNF, apelava às mulheres portuguesas para que se oferecessem para madrinhas de guerra.

-A acção desempenhada pelas madrinhas de guerra foi, na minha opinião, muito meritória. Convem lembrar que naquele tempo não havia televisão, telemóveis, internet.    E quem não gostava de, ao fim  de  uma série de dias em operações na mata, regressar ao estacionamento ou quartel, e encontrar á sua espera uma mão cheia de cartas com bonitas e  animadoras palavras, fotografias, jornais, revistas, livros e muitas vezes também algumas encomendas com iguarias ?!. Que bem que isto nos fazia..

-Os militares da 7ª. Companhia de Comandos de Moçambique também tiveram as suas madrinhas de guerra.    Algumas, tiveram mais tarde o estatuto de namoradas e posteriormente esposas.      Devo também referir que alguns de nós tivémos madrinhas "internacionais"  oriundas de países com quém tinhamos alguma afinidade cultural e linguística, Brasil, Espanha, Venezuela e até o México.

 

-A todas as mulheres que de forma desinteressada e generosa  foram Madrinhas de Guerra,

desse modo contribuindo para o bem-estar moral dos Soldados Portugueses que ao serviço da Pátria deram o seu melhor, expresso a minha singela homenagem e gratidão pelo apoio que então nos prestaram.

Bem-Hajam.

João A.Dâmaso

 

 

 

 

publicado por 7ccmdsmoc às 22:53
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12 comentários:
De Guida a 16 de Março de 2010 às 10:03
Sabes que também faço parte desse rol de mulheres? Talvez por isso tenha percebido cedo o verdadeiro horror da guerra que se vivia no norte de Moçambique e que nós nas cidades não fazíamos a menor ideia.
Nenhum dos meus "afilhados" foi meu marido ou sequer namorado mas amigos arranjei muitos. Alguns deles fizeram questão de, ao regressarem á Metrópole, passarem por Lourenço Marques para pessoalmente me agradecerem o que para eles tinha sido a ajuda que possibilitou que os intermináveis dias e anos fossem mais leves e dentro do possível mais agradáveis.Isso enchia-me de alegria. Deixo um beijo para todos vós e um especial para algum meu afilhado que por aqui passe.
Obrigada João por te lembrares das madrinhas de guerra. As homenagens, por muito singelas que sejam, são sempre homenagens e a gratidão acho que tem que ser mútua.


De 7ccmdsmoc a 18 de Março de 2010 às 13:11
Obrigado pelo teu comentário Guida.
Sabia que também tinhas sido Madrinha de Guerra de militares portugueses, e por isso, também tens direito a uma parte desta pequena, mas muito merecida homenagem. Se continuasse a haver madrinhas de guerra, pelos motivos que então existiam, não seria bom . Contudo, as madrinhas de guerra já não existem, mas as guerras, essas continuam.
Obrigado pelo teu apoio
João Dâmaso


De Sara Oliveira a 2 de Maio de 2011 às 22:32
Sou estudante do mestrado em Jornalismo na Universidade de Coimbra, e encontro-me neste momento a fazer uma grande reportagem sobre madrinhas de guerra e os respectivos afilhados.
Gostaria muito de conhecer as suas histórias daqueles conturbados tempos. Este é um trabalho de fundo que estou a desenvolver, e se fosse possível, gostaria muito de contar com a sua contribuição, sugerindo até outras pessoas que conheça, eventualmente.
Para contactar-me poderá faze-lo para o endereço de e-mail sara.i.s.oliveira@gmail.com.

Grata pela atenção.
Os meus cumprimentos,

Sara Oliveira


De Carlos Almeida (Micas) a 17 de Março de 2010 às 21:35
Excelente artigo amigo Damaso.
Um abraço
Mama Sume


De 7ccmdsmoc a 18 de Março de 2010 às 13:00
Obrigado pelo teu comentário companheiro. Com este pequeno artigo quis, de uma forma singela, prestar uma pequena homenagem a todas as mulheres que sempre nos apoiaram e que nós, muitas vezes, não lhes reconhecemos o devido valor. As Madrinhas de Guerra desempenharam um papel extremamente importante no apoio moral aos militares que então combatiam nas ex-colónias. E não só portuguesas, pois como pudeste verificar, também havia madrinhas estrangeiras.
Vivam todas as mulheres. Vivam as mulheres que foram Madrinhas de Guerra dos Soldados Portugueses.
Um abraço
João Dâmaso


De Felismina Costa a 5 de Abril de 2010 às 23:28
Olá! também eu fui madrinha de guerra de um rapaz que até hoje não conheço . Eu era uma menina com dezasseis anos à data, e muito amiga de escrever, para além de saber que era um dever, era um gesto que nada custava e que alegrava a vida de quem lutava em (defesa da Pátria). Tenho pena porque o não cheguei a conhecer, mas fiquei muito feliz porque sei que regressou. Espero que tenha sido muito feliz, e que continue a ser por longos anos. Espero que como eu, seja pai e avô, e que a sua prol seja igualmente feliz.

mina.


De 7ccmdsmoc a 6 de Abril de 2010 às 21:54
D.Felismina Costa.
Obrigado pelo seu comentário. Seguramente que o militar de quem foi madrinha de guerra, e que como muito bem diz, combatia ao serviço da Pátria, ficava muito feliz quando recebia as suas cartas, que com toda certeza lhe davam alento para enfrentar as dificuldades.
Muito obrigado por ter sido madrinha de guerra de um soldado português.
Disponha sempre
João Dâmaso


De Felismina Costa a 7 de Abril de 2010 às 00:25
Boa - noite Sr. João Dâmaso!
Falar da guerra colonial, é falar da nossa juventude: poderia ter sido uma juventude diferente se os homens que governam os países, e muito particularmente, os que governavam o nosso país à época, tivessem uma sensibilidade e uma percepção da extensão da tragédia que matou, mutilou, dividiu e destruiu famílias e lares. A guerra, uma realidade que contesto em qualquer situação, foi-nos apresentada nessa época como a defesa do que era nosso, e nós, jovens e puros, lutamos na sua defesa. Como em todas as épocas com sofrimento e dor e perdas irremediáveis, mas, até eu que sou mulher, lembro-me que nessa época, tinha pena de não ser homem para lutar também pela Pátria.
Grande, imenso o coração dos jovens, mas igualmente frágil e vulnerável aos argumentos dos astutos.
É a história, que largamente temos escrito ao longo dos séculos!
Primeiro na conquista e alargamento do território e depois na sua defesa, e depois ainda, quando não soubemos perder a favor de outros.
Tanto na frente de combate como na retaguarda , o suor e as lágrimas dos Portugueses deram ao mar o gosto que conhecemos e sempre nos devolve.
Mas, basta de guerras!
Como é bom viver em paz!
Foi um prazer escrever estas linhas.
Muitos anos depois, a guerra ainda é motivo de conversa, e continuará a ser, enquanto existir um membro da nossa geração que sofreu e lutou, mas que ao mesmo tempo, vivenciou e cresceu.
Bem-haja pela sua paciência.
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Boa - noite Sr. João Dâmaso! <BR>Falar da guerra colonial, é falar da nossa juventude: poderia ter sido uma juventude diferente se os homens que governam os países, e muito particularmente, os que governavam o nosso país à época, tivessem uma sensibilidade e uma percepção da extensão da tragédia que matou, mutilou, dividiu e destruiu famílias e lares. A guerra, uma realidade que contesto em qualquer situação, foi-nos apresentada nessa época como a defesa do que era nosso, e nós, jovens e puros, lutamos na sua defesa. Como em todas as épocas com sofrimento e dor e perdas irremediáveis, mas, até eu que sou mulher, lembro-me que nessa época, tinha pena de não ser homem para lutar também pela Pátria. <BR>Grande, imenso o coração dos jovens, mas igualmente frágil e vulnerável aos argumentos dos astutos. <BR>É a história, que largamente temos escrito ao longo dos séculos! <BR>Primeiro na conquista e alargamento do território e depois na sua defesa, e depois ainda, quando não soubemos perder a favor de outros. <BR>Tanto na frente de combate como na retaguarda , o suor e as lágrimas dos Portugueses deram ao mar o gosto que conhecemos e sempre nos devolve. <BR>Mas, basta de guerras! <BR>Como é bom viver em paz! <BR>Foi um prazer escrever estas linhas. <BR>Muitos anos depois, a guerra ainda é motivo de conversa, e continuará a ser, enquanto existir um membro da nossa geração que sofreu e lutou, mas que ao mesmo tempo, vivenciou e cresceu. <BR>Bem-haja pela sua paciência. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Bem-hajam</A> todos os homens do meu país, que sabem ser solidários com os povos contra os quais lutaram, <BR>dando assim lições de humanismo aos senhores da guerra. <BR>Cumprimentos cordiais da <BR>Felismina <BR>


De 7ccmdsmoc a 21 de Setembro de 2010 às 14:37
D.Felismina Costa.
Recentemente a Felismina fez um comentário no meu blog que então publiquei sobre as Madrinhas de guerra.
Será que poderia entrar em contacto comigo, através do meu endereço, que abaixo refiro, ou pelo telemóvel?
"joaodamaso@netcabo.pt"
Telemóvel: 960471447
Os meus agradecimentos
João Dâmaso


De Sousa a 23 de Novembro de 2010 às 18:32
A todas as madrinhas de guerra que aqui deixaram o seu comentário e às outras que o não fazem. Ao camarada editor do blogue, venho lembrar que neste momento se está a desenvolver uma campanha que visa reunir depoimentos e testemunhos das madrinhas e dos afilhados.

Podem contactar comigo para: sougus@hotmail.com


De Anónimo a 16 de Fevereiro de 2011 às 17:03
Estou a escrever um texto de teatro sobre as madrinhas, voce tem alguma carta original.


De 7ccmdsmoc a 17 de Fevereiro de 2011 às 13:04
Caro Sr/Sra.
Lamentávelmente, e apesar de ter tido muitas madrinhas de guerra, não tenho nenhuma carta que então me tenha sido dirigida.
Disponha para qualquer outra coisa em que a minha opinião possa ser útil.
João Dâmaso


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