Domingo, 25 de Janeiro de 2009

7- O Soldado Martins

 

  

Este episódio foi-me enviado pelo ex-Alferes  Angelo Santos, Comandante do 1º Grupo de Combate da 7ª CCMDS.           

Relata as peripécias do Soldado Martins.

  

O Soldado Martins

 

 A bicha de pirilau avançava umas centenas de metros depois de termos jantado. O primeiro homem já sabia como era. Procurar uma árvore frondosa, com alguma vegetação em volta, para nos abrigarmos do cacimbo.

 Fizemos o círculo à volta do tronco e preparámo-nos para nos deitar, sempre com quatro homens localizados nos pontos cardeais, atentos a qualquer alteração das condições envolventes. Com o sol-posto a noite caía rapidamente e deitávamo-nos.
 Sussurrei: - Contagem. Um - e passava a palavra ao soldado ao meu lado esquerdo. Minutos depois chegava a contagem da minha direita :
Contagem. Vinte cinco. - Estávamos lá todos. Começava a sentinela, normalmente o seguinte ao último da noite anterior. Uma hora de cada um, atento a qualquer tentativa de intrusão inimiga.
Para espanto meu, o primeiro a acordar deu-se conta de que o sol já ia alto. Espalhafatoso, acordou o grupo todo, pedindo eu que se mantivessem na posição em que estavam, não tivéssemos sido seguidos e levávamos com metralha da grossa só de levantar o pescoço acima do capim alto. Pedi a contagem. O recado chegou.
 Falta o soldado Martins... - bichanaram-me.-
Como? O soldado Martins? - Bichanava-se no grupo todo. O soldado pirara-se, deixara a arma, o cinturão com as cartucheiras e granadas de mão e a mochila vazia. Levara com ele a ração de combate. Ele já andava a ameaçar há uns tempos.
 O desgosto da rapariga lá da terra de o ter deixado por outro que já passara à peluda, tinha sido enorme. Nunca o tínhamos levado a sério. Que se ia atirar aos leões, comido ingloriamente, repasto selvagem que não deixava hipótese de arrependimento à ex-namorada. E o desgosto estava à vista. Comido por leões. Cabisbaixos, fomos levantando aos poucos, refizemos a bicha de pirilau, quando chegou mais um recado bichanado .
Meu alferes, quem é que carrega o material do soldado Martins?
É preciso perguntar? Os da equipe dele...
Ninguém quer levar a arma... Não faz sentido um soldado com duas armas...

Alguém que a meta na mochila, tipo antena, mas sem bala na câmara! - Calhou a sorte ao Soldado Matias, amigo do Martins, que também sofrera com o desengano deste, tão bem que conhecia a namorada do amigo, rapariga bonita e de muito juízo, a quem deviam ter dado alguma mistela que a virou do avesso, a ela ou às roupas, ainda não se sabia ao certo.

Caminhamos toda a manhã e eu sem participar ao Comandante da Companhia a tragédia do grupo. Remoí todas as maneiras de lho dizer... Era disparatado, via rádio, dizer que o Soldado Martins se atirara aos leões. Desaparecido! Mas... e se o Comandante nos mandasse procurá-lo? A gritar por ele pela mata fora, não era brincadeira, morteirada na certa e a zona era conhecida. Não me apetecia nada levar com uns balázios por conta de quem dera corda às botas, sem avisar ninguém. Decidi deixar a notícia para mais tarde. Quando parámos à hora do almoço, chamei o Matias e tentei perceber melhor o que se passava

Meu alferes, ele anda de cabeça caída, aquilo da miúda dele, de o deixar assim, sem mais nem menos foi muito mau. Um homem não chora, mas ele não andava bem. Escondia-se. - Nunca o levei a sério. Julguei que brincasse.-

Meu alferes, ele brincava com tudo, mas aquilo é dentro dele, nunca se quis mostrar magoado. Ele desapareceu para sempre. - Engoli em seco. Não era um assunto de todos os dias. Preferi esperar, não pensar, aquilo mexia com todos nós.

- Obrigado, Matias.

Regressamos à caminhada e não era percorrido metade do que nos tínhamos proposto, quando alguém gritou no meio da mata:

Meu Alferes! - Caímos todos de bruços, armas apontadas para ripostar. Esperamos por novo chamamento.

 Sou eu, o Martins... a paz voltou-se-me à alma. Mas nunca fiando. Era ele... mas seria que trazia os leões com ele? Ou tinha sido apanhado pelo inimigo e era uma emboscada daquelas de que não há memória?

 Voltaste? – perguntei

Sim.

 Então os leões fugiram de ti?

Não. Não vi leões .

Quantos turras tens contigo? 

 A falar daquela maneira no meio do mato, o som propagava-se a quilómetros. Não me agradava.

Nenhum. Deixe-me voltar.
Com o Martins salvo, convinha que nada se soubesse na Companhia. Um dia perguntei-lhe pela namorada perdida.
Qual namorada, meu alferes?  A dos leões?
Ficou a amizade entre nós.

 

 

(À procura do Soldado Martins....)

 

 

 

 

 

publicado por 7ccmdsmoc às 12:02
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