Domingo, 25 de Janeiro de 2009

7- O Soldado Martins

 

  

Este episódio foi-me enviado pelo ex-Alferes  Angelo Santos, Comandante do 1º Grupo de Combate da 7ª CCMDS.           

Relata as peripécias do Soldado Martins.

  

O Soldado Martins

 

 A bicha de pirilau avançava umas centenas de metros depois de termos jantado. O primeiro homem já sabia como era. Procurar uma árvore frondosa, com alguma vegetação em volta, para nos abrigarmos do cacimbo.

 Fizemos o círculo à volta do tronco e preparámo-nos para nos deitar, sempre com quatro homens localizados nos pontos cardeais, atentos a qualquer alteração das condições envolventes. Com o sol-posto a noite caía rapidamente e deitávamo-nos.
 Sussurrei: - Contagem. Um - e passava a palavra ao soldado ao meu lado esquerdo. Minutos depois chegava a contagem da minha direita :
Contagem. Vinte cinco. - Estávamos lá todos. Começava a sentinela, normalmente o seguinte ao último da noite anterior. Uma hora de cada um, atento a qualquer tentativa de intrusão inimiga.
Para espanto meu, o primeiro a acordar deu-se conta de que o sol já ia alto. Espalhafatoso, acordou o grupo todo, pedindo eu que se mantivessem na posição em que estavam, não tivéssemos sido seguidos e levávamos com metralha da grossa só de levantar o pescoço acima do capim alto. Pedi a contagem. O recado chegou.
 Falta o soldado Martins... - bichanaram-me.-
Como? O soldado Martins? - Bichanava-se no grupo todo. O soldado pirara-se, deixara a arma, o cinturão com as cartucheiras e granadas de mão e a mochila vazia. Levara com ele a ração de combate. Ele já andava a ameaçar há uns tempos.
 O desgosto da rapariga lá da terra de o ter deixado por outro que já passara à peluda, tinha sido enorme. Nunca o tínhamos levado a sério. Que se ia atirar aos leões, comido ingloriamente, repasto selvagem que não deixava hipótese de arrependimento à ex-namorada. E o desgosto estava à vista. Comido por leões. Cabisbaixos, fomos levantando aos poucos, refizemos a bicha de pirilau, quando chegou mais um recado bichanado .
Meu alferes, quem é que carrega o material do soldado Martins?
É preciso perguntar? Os da equipe dele...
Ninguém quer levar a arma... Não faz sentido um soldado com duas armas...

Alguém que a meta na mochila, tipo antena, mas sem bala na câmara! - Calhou a sorte ao Soldado Matias, amigo do Martins, que também sofrera com o desengano deste, tão bem que conhecia a namorada do amigo, rapariga bonita e de muito juízo, a quem deviam ter dado alguma mistela que a virou do avesso, a ela ou às roupas, ainda não se sabia ao certo.

Caminhamos toda a manhã e eu sem participar ao Comandante da Companhia a tragédia do grupo. Remoí todas as maneiras de lho dizer... Era disparatado, via rádio, dizer que o Soldado Martins se atirara aos leões. Desaparecido! Mas... e se o Comandante nos mandasse procurá-lo? A gritar por ele pela mata fora, não era brincadeira, morteirada na certa e a zona era conhecida. Não me apetecia nada levar com uns balázios por conta de quem dera corda às botas, sem avisar ninguém. Decidi deixar a notícia para mais tarde. Quando parámos à hora do almoço, chamei o Matias e tentei perceber melhor o que se passava

Meu alferes, ele anda de cabeça caída, aquilo da miúda dele, de o deixar assim, sem mais nem menos foi muito mau. Um homem não chora, mas ele não andava bem. Escondia-se. - Nunca o levei a sério. Julguei que brincasse.-

Meu alferes, ele brincava com tudo, mas aquilo é dentro dele, nunca se quis mostrar magoado. Ele desapareceu para sempre. - Engoli em seco. Não era um assunto de todos os dias. Preferi esperar, não pensar, aquilo mexia com todos nós.

- Obrigado, Matias.

Regressamos à caminhada e não era percorrido metade do que nos tínhamos proposto, quando alguém gritou no meio da mata:

Meu Alferes! - Caímos todos de bruços, armas apontadas para ripostar. Esperamos por novo chamamento.

 Sou eu, o Martins... a paz voltou-se-me à alma. Mas nunca fiando. Era ele... mas seria que trazia os leões com ele? Ou tinha sido apanhado pelo inimigo e era uma emboscada daquelas de que não há memória?

 Voltaste? – perguntei

Sim.

 Então os leões fugiram de ti?

Não. Não vi leões .

Quantos turras tens contigo? 

 A falar daquela maneira no meio do mato, o som propagava-se a quilómetros. Não me agradava.

Nenhum. Deixe-me voltar.
Com o Martins salvo, convinha que nada se soubesse na Companhia. Um dia perguntei-lhe pela namorada perdida.
Qual namorada, meu alferes?  A dos leões?
Ficou a amizade entre nós.

 

 

(À procura do Soldado Martins....)

 

 

 

 

 

publicado por 7ccmdsmoc às 12:02
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Sábado, 17 de Janeiro de 2009

6-Não foram esquecidos....

 

 

-Na construção deste blog tenho-me referido, quase exclusivamente, ao pessoal  operacional, isto é, aqueles que tinham a especialidade "Comando".   Contudo, da 7ª Companhia de Comandos também faziam parte outros militares, com outras especialidades, e que, é justo e imperioso que se diga, sem o seu apoio não teríamos conseguido cumprir cabalmente as nossas missões.  

Refiro-me à Formação da Companhia.

 

 

A Formação

 

-A Formação englobava, como já disse, militares com várias especialidades : mecânicos; transmissões; serviço de saúde;  administração militar (alimentação); condutores; atiradores; corneteiros , etc.

-Com excepção da Secretaria e dois ou três militares mecânicos que estavam sempre no Batalhão, todos os outros elementos da Formação  nos acompanhavam para as intervenções, fossem elas no Distrito de Tete ,Cabo Delgado, ou outro sítio qualquer, e portanto sofriam como nós as agruras das picadas estando igualmente sujeitos  a emboscadas ou rebentamento de minas.

 

 

A Secretaria da Companhia

 

-Da Formação fazia também parte a Secretaria da Companhia que estava permanentemente instalada na sede do Batalhão em Montepuez.      Era chefiada por um 1º Sargento e estavam lá também colocados um Furriel e uma ou duas praças.

-A Secretaria ocupava-se de toda a parte administrativa, vencimentos, escrituração de documentos, baixas e altas  por motivos de saúde, e diversos outros assuntos.     Para além disso, à Secretaria cabia ainda uma outra função muito importante e com grande impacto em todos nós:  tinha a incumbência de, sempre que isso fosse possível, enviar para o local onde a Companhia se encontrasse estacionada a nossa correspondência, que nos era endereçada para Montepuez.

-E como nós ficávamos satisfeitos quando recebiamos as cartas  enviados  pelas nossas "madrinhas de guerra"?     Ás quais depois, a maioria de nós, respondia utilizando os "amarelinhos", essa excelente idéia das senhoras do Movimento Nacional Feminino,  distribuidos pelo Serviço Postal Militar, e que quando expedidos para fora do território de Moçambique eram gratuitamente transportados pela TAP.

 

 

(Aerogramas, também conhecidos como amarelinhos ou bate-estradas)

 

Serviço de Saúde

 

  

A nossa equipa médica, chefiada pelo João Carrilho,   «tratava-nos da saúde»   e de que maneira!!.... Quais bolhas nos pés, qual quê?!    Isso era coisa que não nos afligia . 

A Brigada do Reumático estava á pega com eles. 

Uma  "baldazita" para não ir ao mato, está bem está, nem pensar!!

 

 

 (O João Carrilho e eu, será que iamos fazer  uma "evacuação" ?!)

 

 

 

Transmissões

  

 

Os "Radiots" devidamente enquadrados pelo Próspero punham-nos em contacto com qualquer parte do território, não havia sitio para onde não se conseguisse falar.

Além de que montavam antenas e estendiam fios por tudo quanto era sitio.

Era uma equipa impecável, para eles, "Transmissões" não era problema..

 

 

 

 

 ( Não era exactamente igual a este, o material que o pessoal das Transmissões nos distribuia, mas estavam lá perto...)

  

 

 

Viaturas e Transportes

 

 

  

-O Gonçalves com a sua equipa de mecânicos e condutores  faziam verdadeiros milagres, não tinham dificuldade nenhuma em colocar-nos "sobre rodas".   Aquela equipa não brincava, eles conseguiam, a partir de um tronco de pau-preto, fazer um semi eixo para um Unimog, ou uma ponte para o diferencial da Berliet!!..

Viaturas inops?    Nem pensar, não nos podiamos dar a esse luxo..

 

 

 

 

( O Unimog avariou, havia que transportá-lo para o devido lugar.)

 

  

 

Serviço de Alimentação

 

 

-E que dizer do Serviço de Alimentação,  da responsabilidade do Santos Silva, que tantas vezes conseguiu a proeza de nos pôr a todos de acordo  quanto à qualidade da comida?

 Já não falo aqui da quantidade que quase sempre nos  "fartava"!

Mas tinhamos sempre a possibilidade de ir à improvisada cantina, comer uma sandocha de chouriço ou queijo, habilmente confeccionada pelo Pereira, e acompanhada com uma bejeca, que nem sempre estava à temperatura ideal, mas que caía às mil maravilhas.

 

  

(Com o Carlos Silva, petiscos destes eram normais...)

 

 

 

Agora a sério rapazeada, cada um na sua função, foram de uma importância fundamental para nós, e por isso mesmo o nosso  reconhecimento pelo vosso trabalho.

A 7ª Companhia de Comandos não teria sido a mesma sem o vosso indispensável contributo.

Bem haja a todos.

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

5-Recortes de Imprensa (Jornais de Moçambique)

Excertos das notícias publicadas pelo jornal  DIÁRIO DE NOTÍCIAS,  de Moçambique dos dias 25 e 26 de Fevereiro de 1973, a propósito das cerimónias de encerramento do 7º curso de Comandos e formação da 7ª COMPANHIA DE COMANDOS DE MOÇAMBIQUE.

Dado que se trata de noticiais muito extensas, optei por transcrever apenas algumas partes que entendi como sendo as mais significativas.

 

Jornal do Dia 25FEV

 

 

 

 

 

A  cerimónia realizou-se em Montepuez  e foi presidida pelo Gen. Kaúlza de Arriaga

 

"MONTEPUEZ, 25  -  Quando a cerimónia terminou, um alferes, muito jovem e muito  cansado, afastou-se para uma sombra neste dia quente, carregado de nuvens, abafado da humidade.  E quando lhe perguntei directamente por que razão tinha escolhido os "Comandos". olhou-me com uma grande petulância, e atirou : « Tem ideia melhor para mim no Moçambique de agora»?

      Pondo de parte o que possa haver de orgulhoso exagero na resposta de um jovem moçambicano que a partir de hoje vai comandar um grupo de jovens moçambicanos, aquela frase, naquele sítio e naquela hora, tinha justificação de fundo e de forma .   Há poucos minutos, neste terreiro engalanado e quente de Montepuez, cento e onze novos "comandos" responderam que sim dum grito arrancado às suas vontades à pergunta sacramental:  « Queres ser Comando? »

     Kaúlza de Arriaga, que é o homem mais impenetravel que tenho conhecido, trazia os olhos muito brilhantes, notóriamente empolgados, quando regressou à tribuna de honra, depois de ter passado para as maõs do Comandante  da 7ª Companhia de Comandos de Moçambique o guião que, como é hábito, a população de Montepuez ofereceu à recém- constituída  unidade de combate.  Mais tarde entre uma centena de convidados que se refrescavam num beberete debaixo de embondeiros, o Comandante-Chefe fez questão de ser fotografado no meio dos novos oficiais "Comandos" de Moçambique.   A  7ª Companhia estava formada, instruída e até já contava com cinco mortos (emocionadamente recordados na cerimónia de imposição de crachás).        Desde hoje, Moçambique conta com os seus  sete oficiais, vinte e um furriéis e oitenta e três soldados.

     « Mama suma» quer dizer « aqui estamos» foram a frase e a ideia mais presente hoje nesta pequena e longínqua cidade moçambicana.  "

 

A cerimónia

 

   "  A cerimónia de imposição de insignias e constituição da 7ª Companhia de Comandos de Moçambique foi presidida pelo General Comandante-Chefe, Kaúlza de Arriaga.  Presentes também, o  Governador do Distrito de Cabo Delgado, Comandante Santos Prado, o Brigadeiro Neto, Comandante da 3ª Região Aérea, o Comandante do Sector  "B", Coronel  Damião, e os Consúles da Alemanha, dos Estados Unidos e da África do Sul, acreditados em Lourenço Marques.

     Grande multidão enquadrava a Escola de Comandos para assistir à cerimónia de fim do curso de Comandos que aqui se realiza.    

     Esta nova Companhia é predominantemente  constituída por africanos que, tal como os europeus, são naturais de Moçambique.   Entre os soldados, nomeadamente,a percentagem de negros é de 55,5 por cento.

     O General Kaúlza de Arriaga, que se deslocou propositadamente de Nampula, chegou a Montepuez ás 9 horas. Depois das cerimónias da praxe,  à entrada do Batalhão de Comandos, o Comandante-Chefe tomou lugar  a presidir na tribuna de honra.

     A guarda de honra ao General Kaúlza de Arriaga fora prestada pela 34ª Companhia de Comandos.

     No decorrer da cerimónia, o momento mais emocionante foi o da chamada aos mortos, cinco elementos falecidos durante a instrução - três por doença e dois por acidente com arma de fogo.    «Para nós eles não morreram»  -   afirmou o Comandante da Escola , Major Jaime Neves, nas palavras que proferiu a abrir a cerimónia.

    A 7ª Companhia de Comandos de Moçambique será comandada pelo Capitão Abrantes dos Santos.  No final da sua instrução, e como já é habitual também, este grupo realizou uma operação, que teve o nome de código "OUSADIA 3" e em consequência da qual foram abatidos cinco elementos IN, outros quatro feridos e capturada uma espingarda semi-automática Simonov, sendo também destruídos vários abrigos.   Esta operação decorreu na região de Macomia, a norte de Cabo Delgado.

   A preparação militar dos novos  Comandos durou quinze semanas e os instruendos foram submetidos  a um treino severo e completo.

   Este 7º curso foi iniciado por três oficiais, treze instruendos do curso de oficiais milicianos, cinquenta e um instruendos do curso de sargentos milicianos, e duzentos e cinquenta e cinco instruendos do contingente geral.     Obtiveram aproveitamento respectivamente, um oficial,  seis instruendos do COM,  vinte e um instruendos do CSM , e oitenta e três instruendos do Contingente Geral.        De notar que todo este pessoal, antes de ingressar no Batalhão de Comandos, havia sido já sujeito a duas selecções.. "

  

A Sorte Protege os Audazes

 

"Deste longíquo Cabo Delgado, dou-vos a boa nova de que o Grito "Mama Suma" voltou a ecoar na Escola dos Comandos, desta vez por novos elementos, com novas fardas, mas com uma só mentalidade:  " A SORTE PROTEGE OS AUDAZES".     

 

 

 

Jornal do Dia 26FEV

 

 

 

  

Inicio e desenrolar da cerimónia

 

"-Depois da continência que lhe foi prestada pelas forças em parada, com terno de clarim, num total de três Companhias, sob o comando dos capitães Moura, Carapeta e Abrantes dos Santos, das 32ª , 34ª e 7ª  Companhias, o General Kaúlza de Arriaga passou depois revista às mesmas, acompanhado do Major Jaime Neves,  do Comandante das forças,  capitão Carapeta.   Mais tarde, o Comandante do Batalhão de Comandos, Major Jaime Neves, proferiu uma vibrante alocução de exortação patriótica à 7ª Companhia de Comandos recém-formada, cujas palavras despertaram momentos de extrema comoção em toda a assitência, terminando com o tradicional  grito de guerra "Comando" :« Mama Suma», ao qual responderam todas as forças em parada em uníssono."

 

Momento mais solene e de maior significado humano

 

"-Depois do capitão Carapeta, designado para comandar as forças em parada, ter procedido à leitura do Código "Comando", seguiu-se o momento de maior significado humano, a tradicional chamada aos mortos.

Durante este cerimonial, foi foi observado em sentido e em atitude de profundo recolhimento, um minuto de silêncio, em homenagem póstuma a, a cinco militares, instruendos da 7ª Companhia de Comandos, que morreram durante a instrução, seguido do toque de alvorada, simbolo do dia a dia que renasce.

À medida que era efectuada a chamada dos militares falecidos, cujas identidades e circunstâncias que rodearam a sua morte eram reveladas, todos os "Comandos" respondiam «Presente» justamente para significar que para eles aqueles camaradas não morreram."

 

Imposição de insignías à 7ª Companhia

 

"-Seguiu-se a cerimónia de imposição de crachás aos elementos da 7ª Companhia que terminaram  com aproveitamento o Curso de Comandos da Região Militar de Moçambique.

Para o efeito, os 111 elementos que formam esta Companhia, receberam das maõs de outros camaradas já velhos  "Comandos", os respectivos crachás, após responderem em voz alta e sem a mínima hesitação:  «Quero» à pergunta se queria ser "Comando". "

 "Integrado no ritual "Comando" , teve  posteriormente  lugar o acto de transmissão de comando dos instrutores, para os oficiais que terminaram com aproveitamento o 7º Curso de Comandos, seguida da leitura do artigo da Ordem de Serviço , que publica a criação  desta Companhia da Região Militar de Moçambique.

" A encerrar a cerimónia foi oferecido  posteriormente, um almoço de confraternização  a todos os convidados, no refeitório geral dos praças, a que assistiram também além do General Kaúlza de Arriaga e esposa,  o Comandante Santos Prado, presidente da Câmara de Montepuez e diversos oficiais superiores, capitães e subalternos.     No final do repasto, falaram o Alferes Miliciano "Comando" Feliciano Muchine e o Soldado "Comando" Calisto, para agradecerem a presença do General Comandante-Chefe e bem assim de todos os outros convidados que se dignaram honrar com a sua presença, os «rapazes» da 7ª Companhia de Comandos . " 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

4- Pequenas histórias da História da 7ªCCMDS/MOÇ

 

Ao longo das nossas intervenções foram-nos acontecendo pequenos contratempos a que agora acho alguma graça, mas que na altura nos iam causando algum embaraço.

Um destes episódios foi-me enviado pelo ex-Fur.Milº CARLOS SILVA, que vindo transferido da 3ª CCMDS veio acabar a sua comissão de serviço na nossa Companhia.

Exerceu as funções de Vagomestre e a sua história está precisamente relacionada com essa actividade.

Relata a fuga épica de um boi que havia sido comprado para nosso consumo, mas que conseguiu enganar-nos.

Os outros episódios foram escritos por mim.

 

 

 O  EQUÍVOCO

 

 

Após a sua formação, e portanto na primeira intervenção, a 7ª Companhia de Comandos de Moçambique  foi destacada para a Zona Operacional de Tete (ZOT).
Fomos transportados para a cidade de Tete em várias levas  no avião nord-atlas, mas ainda na pista em Montepuez aconteceram-nos algumas peripécias.
 Por várias vezes o avião se “ fez” á pista e algumas também teve de voltar para trás para descarregar material,  (largar lastro) dado que não conseguia levantar voo.
O “velhinho” nord-atlas era já naquela altura, um avião ultrapassado.
Chegados ao aeroporto de Tete  a aventura continuou, ali tivemos de esperar dois ou três dias pelas viaturas que entretanto haviam saído de Montepuez em coluna e ainda não tinham chegado. 
Resolvido este problema  iniciámos o deslocamento, com as nossas “embambas” para 
a localidade de Mazoe  que dista cerca de 50 kms de Tete,  ali montámos o nosso acampamento, ficando  instalados junto á ponte do rio com o mesmo nome .
No lado oposto ao nosso com a estrada a passar pelo meio , encontrava-se também destacada uma Companhia de Atiradores, por nós sem qualquer sentido de ofensa, vulgarmente apelidados de “pacaças” que de vez em quando iam fazer uns "piqueniques" ali bem pertinho do estacionamento.
O local, pondo de lado a situação de guerra em que nos encontrávamos, até era muito agradável. Tinha bastante água e muita vegetação, o que no Distrito de Tete não era muito frequente.    Em alguns  períodos de descanso descíamos até ao rio a tomar reconfortáveis banhos e   a água, apesar de não ser salgada  fazia-nos sentir tão bem, como se estivéssemos na cosmopolita Costa do Sol, nas  agitadas ondas da  Macaneta, ou no pacato Bilene.
Foi a partir deste estacionamento que partimos para as nossas primeiras operações.
A 7ª Companhia de Comandos , como todas as Companhias formadas em Moçambique, era constituída  maioritariamente, por pessoal natural de Moçambique.
Quase todos os nossos soldados, mas também um  Oficial  e  alguns Sargentos, eram africanos.
 O Furriel Laice era um dos graduados natural de Moçambique.
Durante uma das várias operações que fizemos naquela zona, foi capturado um elemento IN, que tendo vindo connosco para o estacionamento  ali se manteve enquanto aguardávamos ordens para o levar a Tete onde seria interrogado.
 Permaneceu connosco alguns dias e numa determinada altura, em que houve um pouco mais de alegria, e com alguns “copos” já ingeridos, incluindo o tal elemento capturado, este, dirigindo-se ao Fur. Laice , tratou-o por Chefe Raimundo, confundindo-o com o famoso, e já nosso conhecido, Comandante Raimundo da Frelimo, que então seria o Chefe daquele Sector.
Claro que, para o Laíce  aquilo não caiu nada bem , a sua indignação foi tremenda. Ele não gostou mesmo nada da brincadeira e perante a insistência do guerrilheiro queria mesmo ter outra atitude, o que por nós não foi permitido.
É bem sabido que tudo isto não passou de uma tremenda confusão resultante do excesso
da ingestão do liquido de Baco, mas ainda hoje, passados que são 35 anos sobre o acontecimento, continuamos a achar-lhe bastante graça e quando anualmente nos juntamos nos Convívios da Companhia, o Laíce é ainda muitas vezes, por brincadeira, apelidado  de   “Chefe Raimundo”.
 
 
 
 
 - Avião de transporte de pessoal e carga "Nord-Atlas"-
 
 
  O episódio que se segue  passou-se também na Zona Operacional de  Tete
 
 
O SUSTO
 
 
Durante uma operação em que participaram o 2º e 3º Grupos da Companhia, depois de já termos quatro (4) dias de mato, fomos surpreendidos ás 06H15 da manhã do quinto dia por  alguns elementos IN, cujo número não conseguimos determinar ao certo, mas situando-se entre os 7/8 elementos  que já viriam no nosso encalço, ou que , como é mais provável, tenham dado connosco por acaso.
O Soldado Barbosa da Silva (já falecido infelizmente) sendo um dos militares que se encontravam de vigia, apercebendo-se da situação e ainda um pouco estupefacto disparou sobre o inimigo  pondo-nos a todos de sobressalto.
 De forma quase automática, de arma na mão ,e aplicando o que pouco tempo antes tínhamos aprendido no curso, todos procurámos “qualquer coisa” que nos pudesse conferir alguma protecção e daí dar “resposta” ao IN.
Saltámos , eu e o Laíce, dado que estávamos muito próximos, para trás de um minúsculo arbusto que não conferia protecção nenhuma sequer  a um, quanto mais a dois.
 Sendo esta uma situação que não nos convinha, saímos  dali procurando novo abrigo e, por coincidência, fomos os dois, outra vez, para  um outro arbusto  um pouco  maior mas que também não nos protegia de nada.  
Mesmo naquela confusão olhámos um para o outro e não podemos deixar de esboçar um largo sorriso originado pela situação que acabávamos de criar.   
 Passados os momentos iniciais de alguma confusão, repelimos o IN que ainda hoje, estou convencido disso, se encontrou connosco sem o querer  mas que nos ia causando alguns problemas.
 
O Furriel Laíce, um dos protagonistas dos acontecimentos a que acima me refiro, era um dos elementos de que todos na Companhia,  julgo que sem excepção, tínhamos bastante apreço.
 A sua permanente boa disposição a todos contagiava e mesmo nos piores   momentos  tinha sempre qualquer coisa para nos alegrar.
Ainda hoje, perante as dificuldades que por vezes nos contrariam, ele mantém a mesma atitude. Bem  haja.
 
 
 
 
 -Algures na mata-
 
 
 
 
A FUGA DO BOI
 
 
 
Todos nos recordamos da intervenção em Nhacambo, onde com custo, tivemos de montar as tendas sobre o "matope".
Pois bem, eu ia em dias alternados  ao Tchirodze, comprar bois e cabritos. Levava sempre comigo um camarada que servisse de intérprete, já que em Tete se fala "Chinhungue".
A abordagem era invariavelmente - guilissa wombe (vende bois?) guilissa buzi  vende cabritos?).    A resposta era sempre a mesma, "palibi" (não tem) ou "guilissalini" ( não vende).
Depois de algum diálogo acabavam por vender, se necessário fosse com o aliciante da oferta de um cantil de vinho ou uns quilos de sal.   E lembram-se das autênticas pegas de "cernelha" para imobilizar o animal?
Trazíamos sempre um boi morto e outro vivo sendo este amarrado pelas pernas.
Num belo dia, quando descarregávamos o boi vivo no estacionamento, ele conseguiu desenvencilhar-se das cordas que o prendiam e, qual touro tresmalhado, investiu á marrada acabando por fugir.
A situação era aborrecida, já que teria de dar conhecimento ao Comandante da Companhia, o que se verificou logo de imediato.
O Comandante olhou para mim, e em voz de Comando retorquiu :  O boi foi a caminho dos  "turras" , só falta um letreiro a dizer - Oferta da 7ª Companhia de Comandos.
E parafraseando alguém já desaparecido: E esta hein!.
 
 
 
 
 
-Vista parcial de Nhacambo-
 
 
 
 
AS COBRAS
 
 
Em determinada altura, encontrando-nos nós estacionados em Nhacambo, (Tete) , recebemos uma informação, segundo a qual  naquela zona iria passar um grupo de guerrilheiros que se dirigiriam a uma "Base" que estaria localizada naquela  área.
Convém dizer que poucos dias antes da nossa chegada, Nhacambo  havia sido parcialmente destruída pelo inimigo.
Tomámos então os procedimentos necessários, e na noite em que a suposta movimentação deveria ocorrer  fomos emboscar vários pontos de passagem, a maior parte dos quais junto ao rio que passava bem perto do aldeamento e que naquela altura estava completamente seco.
Durante a noite ouvimos vários barulhos, que por invulgares nos chamaram mais a atenção, mas não conseguimos apurar do que se tratava.
A noite passou, e quanto aos guerrilheiros nada, por ali não passaram. Já com o alvorecer e depois de desmontado o dispositivo que havíamos adoptado, fomos ao leito do rio ver se havia pegadas na areia ou outros vestígios  que nos indicassem uma eventual, mas pouco provável, passagem dos guerrilheiros.
Deparámo-nos então com dois "rastos" na areia deixados por dois animais rastejantes e que indicavam precisamente a nossa direcção.     Ficámos a saber que ali tinham passado duas cobras.
Tratando-se de bichos já com um tamanho razoável , a avaliar pelos tamanho dos rastos,  deduzimos que não poderiam estar muito longe e, com a ajuda dos "milícias" do aldeamento  decidimos dar-lhe caça.    Aos  "milícias" coube o feito de as terem capturado.
Foram então os animais expostos  perante os olhares da população, e depois de tiradas algumas fotografias, foram devidamente preparadas tendo servido de refeição a muita gente do aldeamento.
Eu não comeria!...
 
 
 
 
-Os bichos capturados-
 
 
 
Muitos outros pequenos episódios se passaram connosco e que certamente aqui teriam lugar, mas há distância de tempo em que os mesmos ocorreram já não é muito fácil reconstituí-los e, não o fazer relatando-os tal como na verdade aconteceram não seria, em meu entender, muito correcto.
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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3-Os que já partiram

 

 

 

 

 

 

Caíram,  no campo da Honra,   no cumprimento do dever,  pela  PÁTRIA, e pelos Comandos:

 

(Mortos em combate)

 

 

Em Março de 1973;

-Soldado "Comando"  73514672- MANUEL DOS SANTOS SEIXAS

 

Em Setembro de 1973;

-1º Cabo "Comando"  01751471- MÁRIO DA SILVA DUARTE

 

 

 

Já na situação de disponibilidade, temos conhecimento do falecimento dos nossos camaradas:

 

-LUIS MANUEL CAROLO REIS- Fur. Milº  3º Grupo

-INÁCIO FERNANDES RODRIGUES DE OLIVEIRA-Fur Milº 3º Grupo

-JOSÉ MANUEL DOMINGOS- Sold.   3º Grupo

-JOSÉ MANUEL MONTEIRO RODRIGUES-Sold. 3º Grupo

-ABEL DIAS DOS SANTOS- Sold.   4º Grupo

-ANTÓNIO MANUEL MAGALHÃES CARNEIRO-1º Cabo  3º Grupo 

 

 

 

PAZ ás suas almas

 

 

 

 

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2-Sobre a Companhia

 

  

-Prova de fogo-

 

O 7º Curso de Comandos teve inicio em 13NOV72, com um total de 318 militares, e terminou em 25FEV73, com o seguinte aproveitamento:

 

 

-1   Oficial do Quadro Permanente;

-6    Soldados Cadetes do Curso de Oficiais Milicianos;

-21  Soldados Instruendos do Curso de Sargentos Milicianos;

-83  Praças;

 

A 7ª Companhia de Comandos de Moçambique foi oficialmente constituida no dia 25 de Fevereiro de 1973,e, por efeito dos Acordos de Luzaka foi desmobilizada em Outubro de 1974.

A sua actividade operacional desenvolveu-se nas províncias do Norte de Moçambique, tendo obtido resultados significativos.   Por um breve período, actuámos também no Distrito de Lourenço Marques na manutenção da ordem pública.

Sofremos dois mortos em combate.

Sendo uma Companhia do recrutamento de Moçambique, os militares que a integravam  eram, quase todos, deste território, ou ali tinham residência permanente. 

O Sr Cap. Artª ANTÓNIO MARQUES ABRANTES DOS SANTOS ,hoje com a patente de Tenente General e a exercer funções no Supremo Tribunal de Justiça, e  que então cumpria uma comissão de serviço em Moçambique , frequentou voluntáriamente o curso de Comandos e após a constituição da Companhia foi o seu primeiro Comandante.

Após o regresso a Portugal, em 05JUN74, do Cap. Artª "CMD" ABRANTES DOS SANTOS, a 7ª Companhia de Comandos de Moçambique passou a ser comandada pelo Cap.Milº "CMD" JOÃO EDUARDO FLORES ABRANTES DO AMARAL 

Com a independência do território, e porque aqui estavam algumas raízes, muitos de nós viémos para Portugal e aqui refizémos as nossas vidas.

Uma vez por ano reunimo-nos em convívio.

publicado por 7ccmdsmoc às 13:32
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1- Mensagem de boas vindas

AOS VISITANTES

 

Este Blog está a ser feito por um "leigo" na matéria. Qualquer crítica ou sugestão será sempre para mim uma ajuda valiosa para o melhorar.

Obrigado

J.Dâmaso

 

 

 

 

Bem vindos ao Blog da 7ª Companhia de Comandos de Moçambique.  É meu propósito informar e estreitar os laços já existentes entre todos os que integraram a 7ªCCMDS/MOÇ, mas não só.

É também minha intenção que esta página sirva para nos unir ainda mais e manter bem vivo o nosso grande orgulho em sermos "COMANDOS" e ter pertencido a esta Companhia.

Bem hajam

publicado por 7ccmdsmoc às 13:26
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